No início da minha trajetória, quando ouvia que “críticas são um presente”, considerava isso uma falácia. Percebia as críticas como ofensas e tentativas de desmoralização. Minha reação imediata era defensiva: “Como assim criticar meu comportamento? Vocês sabem o esforço que fiz para alcançar esses resultados?”
Com o tempo, percebi o quanto estava enganado. Hoje, reconheço que perdi diversas oportunidades por não ter escutado as críticas de forma construtiva. O ponto de virada ocorreu quando um chefe, a quem eu tinha grande respeito, me disse: “André, se você não mudar, não vai progredir”. Ele apontou que eu resolvia tudo com conflitos e arrogância, e que esse comportamento estava prejudicando minha carreira. As habilidades que me levaram até aquele ponto não seriam suficientes para meu crescimento futuro. Se eu não mudasse, minha carreira estagnaria ou até regrediria.
Procurei apoio na minha rede de confiança (já mencionei a importância de ter uma rede de suporte fiel em momentos difíceis). Surpreendentemente, até minha própria rede corroborou as críticas do meu chefe. Aprendi que eu entrava em conflitos sempre querendo ganhar, que ao invés de ouvir, esperava apenas minha vez de falar, e que criava atritos com colegas, o que enfraquecia o suporte para minhas ideias.
Reconheci a gravidade da situação, mas acreditei que havia solução. O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer sua existência, e o segundo é acreditar que ele pode ser resolvido. Assim, iniciei um processo de mudança. Quem me conhece hoje mal pode acreditar no André de antes. Gostei tanto do processo que me tornei treinador de Inteligência Emocional.
Para aqueles em posições de liderança, lidar com críticas é ainda mais crucial. Decisões, ações e até a personalidade do líder tornam-se alvos de críticas constantes. Saber administrar essas críticas é essencial para o sucesso. Como líder, você toma decisões que afetam muitas pessoas. Nem todas as decisões serão unânimes ou populares, e algumas terão consequências negativas. É natural que as pessoas critiquem decisões que impactam suas vidas. Suas ações e erros serão amplificados dentro da empresa, nas redes sociais e na mídia, tornando as críticas mais públicas e intensas.
Algo que me ajudou a aceitar críticas foi observar pessoas que admiro e refletir sobre minhas críticas a elas. Profissionais como Chico Buarque, Stan Lee, Brené Brown, Steve Jobs, Ricardo Amorim, Clovis de Barros, Simon Sinek e Luiza Trajano são todos passíveis de críticas. Se eles têm imperfeições, quem sou eu para não ter? Com essa consciência, passei a ver críticas como uma oportunidade de aprendizado.
Gerenciar críticas envolve discernir entre críticas construtivas e destrutivas. Não devemos tratar todas da mesma forma. Um mentor pode ser extremamente útil nesse processo, especialmente alguém com mais experiência, que não esteja em sua linha de reporte, que inspire confiança e aceite ser seu mentor. Eles ajudam a selecionar as críticas que merecem atenção e a elaborar um plano de ação.
Líderes também podem se beneficiar de mentores reversos, pessoas menos experientes, mas mais próximas das bases da organização, que podem oferecer percepções valiosas sobre a realidade operacional e a percepção de suas intenções.
Críticas sempre existirão. Seu estilo de liderança determinará se essas críticas chegarão até você. É essencial encontrar um equilíbrio entre absorver insights valiosos e manter a autenticidade. Aceitar nossas imperfeições nos torna mais abertos ao aprendizado e mais humanos, incentivando outros a também expressarem suas dúvidas e falhas. Isso cria uma comunicação mais transparente e uma governança mais eficaz, pois um líder aberto a críticas também estará mais receptivo a informações cruciais sobre o negócio.
Hoje, estou convencido de que sou quem sou graças, e não apesar, das crises que enfrentei e das críticas que recebi.