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Bruna Andrade

É jornalista e escritora, com passagens pelos jornais Diário de Goiás e Goiás News e pelas revistas Bravo! e Vida Simples. Escreve aos domingos sobre assuntos ligados à diversidade, comunicação e cultura. Suas colunas são conhecidas por sua profundidade e precisão, abordando desde as últimas tendências tecnológicas até questões sociais emergentes.

A Crise dos Planos de Saúde no Brasil: A Indiferença Institucional e a Insegurança dos Clientes

A Crise dos Planos de Saúde no Brasil

Por: Bruna Andrade

Apenas a sua família (e talvez não toda) e alguns de seus amigos (talvez nem todos) irão se importar com a sua morte. Para o governo e para as operadoras de planos de saúde, você é apenas um custo.

Mesmo que se pague uma quantia substancial mensalmente por um plano de saúde, sempre há o risco de que uma despesa o coloque no lado negativo da planilha. Milhares de brasileiros descobriram isso ao terem seus planos cancelados unilateralmente.

Independentemente do estado de saúde do cliente, seja tratando um câncer, ultrapassando os 90 anos de idade ou tendo um dependente com autismo, o contrato pode prever que a operadora do plano de saúde o rescinda em caso de prejuízo.

As operadoras defendem-se alegando que o cidadão cujo plano foi cancelado pode migrar para outra operadora sem período de carência. Contudo, essa possibilidade é praticamente inexistente na prática.

As operadoras têm a liberdade de expulsar clientes de planos empresariais ou por adesão, mas não podem rescindir contratos unilateralmente em casos de planos familiares ou individuais – que, atualmente, são quase impossíveis de contratar. Os mais afetados são os clientes dos planos de adesão, geralmente contratados através de sindicatos e associações.

Mais de seis milhões de brasileiros encontram-se nessa situação de total insegurança em relação aos planos de adesão. Muitos, sem conseguir um emprego formal, abriram pequenas empresas para receber salário como pessoa jurídica e, assim, contratar um plano de adesão que inclua dependentes. Pagam quantias elevadas, e o plano de adesão exige um mínimo de três pessoas incluídas.

Quando um plano expulsa um cliente, a única porta de entrada realmente garantida para ele é a do Sistema Único de Saúde (SUS), muitas vezes considerado ineficiente, motivo pelo qual os planos de saúde privados se proliferaram.

Os custos médicos inviabilizam o negócio conforme concebido pelos seus proprietários, com uma margem de lucro pequena percentualmente, mas bilionária em termos absolutos. A medicina tornou-se mais sofisticada, e a Justiça determinou que as operadoras incluíssem tratamentos caros e ilimitados nos benefícios. Além disso, há um evidente excesso de exames solicitados por médicos a pacientes com planos de saúde. Adicionalmente, hospitais particulares transformaram-se em verdadeiros hotéis de luxo, cobrando valores elevados por internações.

Por parte dos clientes, muitos perderam o equilíbrio, recorrendo ao pronto-socorro por qualquer febre para evitar gastos com consultas médicas.

O resultado é uma explosão de despesas para as operadoras e também para os clientes, que não só viram as mensalidades dispararem, mas também passaram a pagar altas taxas de coparticipação.

Temos, portanto, problemas de todos os lados: governos incapazes de manter um sistema de saúde pública decente para todos, que confiam na iniciativa privada para resolver grande parte do problema; empresas que, na ausência de ação governamental, prometeram mais do que podem oferecer a dezenas de milhões de pessoas; aumento natural dos custos, médicos, hospitais e clientes que continuam acumulando dívidas como se não houvesse um limite a ser atingido. É uma combinação de incompetência, leniência, ganância, irresponsabilidade e desperdício.

A disfuncionalidade é abrangente, geral e irrestrita. Mais do que nunca, é preciso lembrar: você é apenas um custo. Ninguém se importa com a sua morte. Portanto, é urgente repensar — e mudar — todo o sistema.